26.6.09

Going to

Entao a gente passa anos sentindo que tem que cair na vida e ganhar o mundo; estuda, trabalha, faz o possivel para nao parar, para conhecer e ver mais do que tem-se diante dos olhos ou ao alcance das maos. Entao, um dia, a gente descobre que jà nao dà pra ir à pé até casa dos pais ou dos amigos mais queridos, que tem um oceano às costas, que jà viu tantos lugares e lembra de alguns perfeitamente. Mas nada, nada mesmo que se tenha visto se compara àquilo que nos forjou e deu consistencia para nao desmoronarmos diante do mundo e das dificuldades.

Um dia, abrimos os olhos e o projeto divino, que uns chamam destino, parace ter-se cumprido porque jà nao hà metas absolutas e nao hà nada mais assim tao forte que nos empurre para mais além de tudo o que jà vimos e jà somos. Nao hà cansaço nesse despertar, hà consciencia, resignaçao, curiosidade ainda e força para o que der e vier mas hà sobretudo certeza de ter visto muito e esse muito começa a bastar.

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Acordei pensando em quantas vezes ainda vou mudar de endereço.

18.6.09

Hoy

"Hoy voy a verte de nuevo,
voy a envolverme en tu ropa.
Susúrrame en tu silencio
cuando me veas llegar."


Continuo um tantinho emotiva demais.

Fazer o que se esse sol na cabeça e esse calor quase africano me trazem a sensaçao de estar caminhando là mas estou é aqui?

Outra crueldade do verao italiano é que, neste periodo, todos os anos, na Italia, escuta-se muita musica brasileira e sulamericana em geral. Em tudo quanto é canto, até dentro das lojas! Aì, jà viu. O meu lado pamonha aflora e là eu volto pra casa com os olhos transbordando saudade.

Hoje, dentro de uma loja, ouvi uma cançao peruana que virou um clàssico do verao italiano hà alguns anos. O norte da Italia é cheio de peruanos, a maioria deles é gente que trabalha duro pra mandar dinheiro pra casa.

A tal cançao é uma declaraçao de amor muito bonita. A Gloria Estefan gravou mas o autor é um cantor peruano chamado Gianmarco.

O que a maioria dos italianos - que juram que sabem mas, na verdade, nao sabem NADA de espanhol - é que essa cançao é sobretudo uma declaraçao de amor à propria pàtria. Por isso é que os peruanos a ouviam sempre, nao sò porque é linda e alegre, nao sò porque dà vontade de arrumar a mala, atravessar o oceano à nado e ir pra casa dançar!

Acho até que a Gloria Estefan cantou pensando em Cuba porque ela a canta com a voz carregada de amor.

Em mim, Hoy, surtiu um efeito terrivel desde a primeira vez que a ouvi porque nòs, da Amazonia brasileira, temos na nossa musica, a mesma batida indigena dos peruanos, o mesmo jeito de tocar os instrumentos de corda, temos em comum o charango, os chocalhos e o mesmo remelexo de passo pequeno.

E se é verdade que saudade é uma palavra sìntese que nao encontra traduçao direta em outras linguas, é bem mais verdade que, de algum modo, a expressao da saudade é igualmente tocante, e encontra-se sempre, em todas as lìnguas.


Hoy

Tengo marcado en el pecho
todos los días que el tiempo
no me dejó estar aquí.

Tengo una fe que madura
que va conmigo y me cura
desde que te conocí.

Tengo una huella perdida
entre tu sombra y la mía
que no me deja mentir.

Soy una moneda en la fuente,
tú mi deseo pendiente,
mis ganas de revivir.

Tengo una mañana constante
y una acuarela esperando
verte pintado de azul.

Tengo tu amor y tu suerte,
y un caminito empinado.
Tengo el mar del otro lado,
tú eres mi norte y mi sur.

Hoy voy a verte de nuevo,
voy a envolverme en tu ropa.
Susúrrame en tu silencio
cuando me veas llegar.

Hoy voy a verte de nuevo,
voy a alegrar tu tristeza.
Vamos a hacer una fiesta
pa’ que este amor crezca más.

Tengo una frase colgada
entre mi boca y mi almohada
que me desnuda ante ti.

Tengo una playa y un pueblo
que me acompañan de noche
cuando no estás junto a mi.

9.6.09

Ainda

Nao sei se é da gravidez ou se é sempre esse sol de junho, mas ainda ando com a saudade de là me apertando a garganta. E, sem saia rodada, sem flor no cabelo, sem bronzeado jambo, sem gota de suor escorrendo da testa, ando dançando pela casa, ando cantando essa saudade aos quatro ventos.

Outro dia, faleceu um artista da minha terra, a voz mais cheia de garbo que o Parà jà ouviu. Aì, me dei conta de que os anos estao passando e de que, a cada minha ida e vinda, muitas vozes vao emudecendo. De repente, tive medo de esquecer os sons de là e me pus a lembrar até dos barulhos que ouvia todos os dias.

Lembro de tudo. O medo passou.

A saudade nao.

25.5.09

Se for menino

Se já nem sei o meu nome,
Se eu já não sei parar,
Viajar é mais, eu vejo mais
A rua, luz, estrada, pó
O jipe amarelou

Manuel, o audaz
Manuel, o audaz
Manuel, o audaz
Vamos lá viajar

E no ar livre, corpo livre
Aprender ou mais tentar

Manuel, o audaz
Manuel, o audaz
Iremos tentar
Vamos aprender, vamos lá!